O Observatório da Língua Portuguesa: Editorial

O Observatório da Língua Portuguesa: Editorial

O Museu da Língua Portuguesa afirmou-se como uma instituição de referência na “celebração e valorização do nosso idioma comum”, estando muito justamente considerado como uma organização de excelência no universo da CPLP. É, assim, muito grato ao OLP - que pretende ser uma plataforma de diálogo e cooperação entre instituições empenhadas na divulgação e promoção da Língua Portuguesa - a colaboração agora  iniciada com o Museu. O Conselho de Administração do Observatório expressa ao Prof. António de Moraes Sartini, Director do Museu da Língua Portuguesa, o melhor reconhecimento por ter aceitado subscrever o presente Editorial de abertura e apresentação do Sítio do OLP neste princípio do seu terceiro ano de actividade.

 

O SUCESSO DO IDIOMA.

Após cinco anos de vida e já tendo recebido mais de dois milhões e quinhentas mil visitas, o Museu da Língua Portuguesa é considerada uma instituição de referência no Brasil e no Exterior.

Existe algum motivo especial para tanto sucesso? Existe algum fator preponderante para que um museu tão jovem já tenha se firmado como instituição respeitável e referencial?

Como Diretor do Museu da Língua Portuguesa, desde sua inauguração, eu tenho certeza que a resposta para as duas questões acima propostas só pode ser uma resposta afirmativa.

Em assim sendo, qual o motivo de tanto sucesso e qual o fator a firmar o museu como instituição respeitável e de referência? A resposta para as duas perguntas é uma só... nossa língua portuguesa!

A ideia de se criar um museu que tem por acervo um idioma é uma ideia genial e extremamente original. Falo com tranqüilidade, porque não participei da equipe de conceitualização e criação do museu.

Lembrando sempre que a língua, no caso a nossa portuguesa, é um patrimônio imaterial, talvez a língua venha mesmo a ser o mais imaterial dos patrimônios imateriais, pois a mesma não está no texto escrito, a língua não está nos livros de gramática, não está na ortografia, a língua não está na literatura ou na poesia. A língua está em todos estes sítios sim, mas está, verdadeiramente, na “cabeça” e no universo imaginário de cada um daqueles que a usa como ferramenta principal de comunicação.

Logo, o Museu da Língua Portuguesa é o museu da imaterialidade por excelência, mas de uma imaterialidade que circunda e reveste todos nós que usamos este belo idioma, é o museu da imaterialidade que está presente no nosso dia a dia e até nos nossos sonhos. Creio que isto já explica o sucesso do museu, pois tendo a língua como acervo, o museu faz com que todos os visitantes se sintam especialistas e grandes entendedores dos conteúdos apresentados em suas exposições.

Devo aqui fazer uma pausa e celebrar a equipe de criação desta instituição, que contou com a participação de mais de 40 profissionais sensíveis e renomados de diversas áreas (linguistas, sociólogos, arquitetos, historiadores, museólogos,professores e artistas).

Ao longo destes cinco anos, toda a minha equipe do museu foi aprendendo a lidar com as possibilidades oferecidas por um acervo imaterial e novas abordagens dos conteúdos apresentados foram ganhando força.  Partindo do princípio que a língua portuguesa é o elo primeiro da identidade cultural dos brasileiros, o museu contém um grande painel da rica diversidade cultural do Brasil, logo, é um espaço identitário para todos nós nascidos neste grande país.

Logo, plena é minha certeza ao afirmar que o motivo de tanto sucesso do museu é a própria língua portuguesa!

Naturalmente os recursos tecnológicos usados para a apresentação de um patrimônio imaterial e a interatividade das áreas expositivas do museu contribuem para o sucesso da instituição, mas de nada valeriam sem o acervo, o nosso idioma.

Mais uma vez a língua portuguesa é a resposta para a respeitabilidade alcançada nestes poucos cinco anos, respeitabilidade que acabou por transformar o Museu da Língua Portuguesa em espaço referencial no Brasil e em todo o mundo.

A partir de nosso idioma, a equipe do museu foi perseguindo metas, adotando padrões de atendimento e pensando e criando suas ações educativas, de formação e difusão cultural.

A língua portuguesa é um patrimônio acessível a todos, logo, o museu tem que ser um patrimônio com acesso aberto à população em geral. Evitamos transformar o museu em um espaço acadêmico, voltado apenas a grande estudiosos. Desta forma, os programas desenvolvidos pela instituição estão sempre preocupados em permitir o acesso e aproveitamento de segmentos muito distintos da sociedade, dos mais letrados aos que apresentam níveis muito baixos de educação formal. O museu atende a todos com o mesmo respeito e consideração, pensando ações que supram às necessidade de cada segmento de seu público, mas que sejam, ao mesmo tempo inclusivas, como inclusiva deve ser a língua!

Desde sua inauguração, a instituição assumiu parcerias com organizações das mais variadas com o objetivo de alcançar um público muito diversificado, assim, hoje, atendemos os visitantes  em geral, escolares da rede pública e privada, portadores de deficiências físicas, grupos de terceira idade, grupos de alfabetização adulta, jovens infratores em processo de assistência do Estado, moradores de rua e muito outros segmentos, além disso, o Núcleo Educativo do museu desenvolve o projeto “ Dengo: um museu para todos” que leva o museu até segmentos da sociedade impossibilitados de visitar a instituição, como crianças em tratamento de câncer e pacientes graves internados em grandes instituições hospitalares de São Paulo.

Cabe ressaltar que a universidade e a academia também encontram espaço dentro do museu, aliás, nosso consultor há cinco anos é o Prof. Dr. Ataliba Teixeira de Castilho, considerado um dos maiores estudiosos da língua portuguesa no Brasil e oriundo de duas das maiores universidades brasileiras ( USP – Universidade de São Paulo e UNICAMP – Universidade de Campinas). Entretanto, no museu, os temas por mais complexos que venham a ser, devem ser apresentados de forma fácil ao entendimento da sociedade no seu todo.

Referência hoje são, também, as exposições temporárias montadas pelo museu ( Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas; Clarice Lispector – A hora da estrela; Gilberto Freyre – intérprete do Brasil; Machado de Assis – mas este capítulo não é sério; O Francês no Brasil em Todos os Sentidos, Cora Coralina – coração do Brasil; Menas, o certo do errado, o errado do certo; e Fernando Pessoa – plural como o universo).

Neste caso também a língua portuguesa figura como fator principal do sucesso das mostras que as transformou em referência nacional. Nosso idioma é tão rico, tão cheio de curiosidades e nos rendeu tantos escritores, autores e poetas magníficos, que nossas exposições apenas retratam esta riqueza e diversidade, valendo-se, claro, de curadores competentes, cenógrafos criativos e dos mais diversos recursos expositivos disponíveis hoje.

Com média diária de mil e quinhentos visitantes, referência em ações educativas, apontado pela mídia como “ o mais querido museu de São Paulo”, modelo para países como Qatar, Itália, Israel, Inglaterra, Alemanha e até Portugal, o Museu da Língua Portuguesa só vem reforçar algo que me parece muito nítido: nossa língua portuguesa é realmente um grande sucesso!

A nossa língua portuguesa ganha, dia a dia, importância maior em todo mundo, tanto no que se refere ao número crescente de falantes, como à importância que os países membros da CPLP vão gradativamente alcançando no cenário mundial.

O nosso belo idioma ganha paulatinamente, mas de forma sempre ascendente, alunos e estudiosos pelas Universidades de todo o mundo.

Assim, instituições e programas que têm por foco nosso idioma também ganham importância. Tanto o Museu da Língua Portuguesa como o Observatório da Língua Portuguesa se destacam e, cada qual com seus objetivos próprios, atuam para um fortalecimento ainda mais expressivo da nossa língua, de nossas histórias comuns e ricas e da cultura que permeia mais de 240.000.000 de pessoas ao redor do mundo, que, guardadas suas diferenças, se encontram e se identificam no idioma português!

 

Antonio Carlos de Moraes Sartini

Diretor do Museu da Língua Portuguesa


 


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